Como o BDSM pode te ajudar em seu relacionamento

BDSM é um conjunto de práticas de fetiches entre pessoas maiores de idade. Pessoas menores de idade podem, porém, se beneficiar desse post uma vez que o foco dele é sobre consentimento e cuidado nos relacionamentos. Lembrem-se: usem camisinha, se protejam, não transem/se relacionem amorosamente com maiores de idade, conversem com pessoas em quem confiem e denunciem assediadores e predadores sempre que possível.

Este não é um texto para “apimentar” seu relacionamento.

Meh.

Não vamos falar sobre chicotes, nem sobre amarrações sofisticadas de shibari, nem sobre o que são pessoas submissas ou dominantes. Esqueça tudo isso. Esqueça qualquer merda que você leu sobre 50 Tons de Cinza. Esqueça essa série de livros, esqueça todo e qualquer clichê dito por feministas ou por conservadores, esqueça as noções que você aprendeu sobre o que é BDSM e fetiche. Nós vamos falar sobre coisas chatas, mas importantíssimas.

Nós vamos conversar sobre consentimento. Sobre limites. E todas essas coisas.

 

Consentimento — a diferença entre “querer” e “deixar rolar”

As feministas adoram falar sobre consentimento. Não é não!, gritam seus cartazes em todas as marchas possíveis, em seus manifestos e em suas rodas de conversa. É uma premissa certeira, sem dúvidas, com a qual podemos todos concordar. É raso, porém. Nenhuma conversa sobre consentimento deve morrer no “não é não”, não quando há tanto para ser dito. É verdade que em alguns círculos, há um certo diálogo sobre como o consentimento não pode ser dado em certas condições: quando a vítima está embriagada, quando ela é menor de idade (e está com um maior de idade), quando ela é acuada e forçada através de jogos psicológicos. O grande porém é que nós temos muitas conversas sobre como todas essas coisas não são sexo, mas formas disfarçadas de estupro. Mas não aprendemos, também, como ter essas conversas positivas dentro dos relacionamentos, quaisquer que sejam.

Dentro do BDSM, toda e qualquer sessão, envolvendo sexo ou não, deve atender a determinadas diretrizes: primeiro, deve ser SSC (são, seguro e consensual) ou RASK (risk-aware consensual kink, ou, “consciência de risco em fantasias sexuais consensuais”), a depender do caso. O que significa isso? Significa que toda e qualquer prática, realizada ali, deve ser segura e que todos os participantes que estejam envolvidos — amigos, namorados, amantes ou apenas desconhecidos querendo ter uma noite de diversão — devem estar cientes do que está acontecendo e do que vai acontecer. O consumo, por exemplo, de álcool e drogas não costuma ser permitido, justamente porque ele turva o cérebro de forma que a pessoa não tem noção do que está sendo feito com ela e seu corpo, portanto, está inapta a decidir qualquer coisa. Sendo o BDSM uma atividade arriscada que pode envolver todo tipo de coisa —  espancamentos, amarrações, confindamentos —, então uma das partes estar bêbada pode ter consequências perigosas, acarretando em traumas severos ou até mesmo a morte. 

O ponto aqui não é que BDSM é perigoso, é que os participantes sabem dos riscos que envolve praticar cada um dos fetiches. E cada um dos fetiches, para ser realizado, demanda muita e profunda conversa entre as partes que vá além do mero “tenho interesse nisso”. O diálogo passa desde por aspectos práticos (“exatamente como você gostaria de ser enforcada?”) e chega até aspectos emocionais e psicológicos (“o que você sente quando eu faço isso?”, “você se sente melhor depois?”). Dessa forma, o consentimento vira uma negociação constante no qual todas as partes envolvidas tem noção por inteiro não apenas do que as outras pessoas querem ou não, mas de como elas se sentem a respeito.

Consentimento não é apenas “deixar rolar”. Uma dona-de-casa exausta que permite que seu marido se satisfaça nela às noites do sábado pode não se considerar estuprada — e de fato, é uma grande violência se considerarmos tal coisa sem a anuência dela —, mas o consentimento inteiro e pleno não está sendo dado. O que está acontecendo é apenas uma permissão para transar, mas o consentimento, da forma como entendemos, precisa de mais do que permissão. Demanda diálogo, demanda cuidado, demanda escuta ativa

É importante que você, enquanto pessoa que pratica sexo ou quaisquer outros atos, seja responsável ativa pelo próprio prazer e verbalize os seus gostos e desgostos. E é igualmente importante que você também ouça a outra parte: o seu namorado, a sua amiga, um contatinho do Tinder. Eu sei que é muito constrangedor parar tudo no sexo para dizer exatamente como a outra pessoa deveria lhe chupar, mas é algo que deveria ser mais praticado. E se você não quiser, tudo bem, mas lembre-se que as consequências disso podem ser um sexo medíocre e nada prazeroso — e, nesse caso, não é uma forma de desrespeitar a si mesma? 

Particularmente, defino consentimento em dois outros termos:

  • comunicação: no qual você e todas as partes envolvidas conversam abertamente sobre o quê querem e não querem no sexo [e fora do sexo, mas foquemos aqui a princípio] e
  • negociação: na qual todos os limites são traçados.

Certa vez, eu li em um texto, escrito por uma submissa, de que o consentimento não é como uma assinatura em um contrato invisível que você dá no começo do sexo, mas uma negociação que deve acontecer do começo ao final, sem pausa. Portanto, é fundamental que todas as partes tenham isso em mente — de que a qualquer momento, as pessoas podem e devem parar por não estarem mais se sentindo confortáveis — e ajam de acordo com isso. Dessa forma, eu sugiro duas coisas: em primeiro lugar, é importante aprender a identificar o próprio desconforto. É para isso que as conversas, tão constrangedoras, são importantes: elas nos permitem nos expor, sermos honestos e vulneráveis, e então tentarmos entender em qual ponto nos sentimos confortáveis e a partir de qual ponto já não temos mais desejo, só incômodo. Isso nos permite traçar limites pessoais, por exemplo. 

Às vezes, certos desejos advém, sim, de certos traumas ou posturas problemáticas. Mas nem sempre convém reprimir essas vontades, e sim tratar delas com franqueza em diálogos abertos. 

E em segundo lugar, sugiro profundamente a adoção de um código que dê conta dessa negociação, ou mesmo uma checagem constante. Depende, claro, das pessoas envolvidas — há muita gente que não suporta que se pergunte “está tudo bem?” o tempo todo, porque isso quebra a fantasia que envolve o sexo. Nessas horas, convém um código a ser adotado. É como a palavra de segurança, mas que dê conta das nuances. Por exemplo, no texto que li — infelizmente, há anos e não faço a mais remota ideia de onde encontrá-lo novamente —, a autora sugeria o uso das cores do semáforo:

vermelho [red]: pare imediatamente;

amarelo [yellow]: proceda com cuidado/desacelere um pouco;

verde [green]: vá em frente!

Dessa forma, as palavras de segurança adotadas conforme o gosto das partes envolvidas funcionam de forma a desnaturalizar a noção do consentimento como uma assinatura em contrato que não pode nunca ser renegado. Se o seu problema é “lembrar as palavras” ou “ficar gritando amarelo! pode tornar o sexo ridículo”, então considere o uso do simples e velho diálogo “okay, acho melhor parar por aqui” ou “okay, cuidado, pois está doendo”. Não importa o meio, realmente, só tenha em mente de que uma vez que você está fazendo sexo, você é tão participante e responsável quanto qualquer outra parte. E isso vale, inclusive, para quem está “passiva” na situação. Não é porque você é a parte que está sendo penetrada por um homem, por exemplo, que você (a) deveria estar à revelia, se deixando ser penetrada e (b) não deveria se preocupar com o bem-estar dele também. A discussão e o prazer são responsabilidade de todos, não apenas de quem “está dando prazer”. 

After Care — como prática constante

Há de se perguntar: por quê diabos virar para o lado e dormir após o sexo?

No BDSM, há uma prática que é chamada de “after care” — o cuidado posterior. É tido como consenso de que as sessões, independente de ter sexo ou não, demandam muito das partes envolvidas, tanto fisicamente quanto emocionalmente, então o cuidado posterior deve acontecer de forma a atender às necessidades fisiológicas e emocionais das partes. Sabe quando dizem para fazer xixi durante e depois do sexo? After care. Sabe aquela conversa que se tem depois, junto à pessoa amada, por horas até que ambos decidam pedir uma pizza? After care

O cuidado com a pessoa com quem se teve um momento íntimo ajuda a estabelecer uma conexão com ela, de forma a entender melhor suas necessidades. Ele pode vir em várias formas: dar água à uma pessoa que esteve amarrada, passar pomada nos machucados de alguém que foi espancada (tudo de forma consensual) ou, se você é uma pessoa perfeitamente “baunilha”, isto é, não pratica BDSM, isso significa checar se a pessoa está hidratada, alimentada e confortável. Literalmente isso. Não é um bicho de sete cabeças, é apenas o básico do cuidado com as outras pessoas. É meio incrível sobre como nós ainda precisamos falar sobre isso, na verdade.

São coisas que deveriam ser básicas.

Conferir não apenas se a pessoa quer, mas como ela se sente. Conferir como ela está confortável, e como ela pensa sobre as coisas que ela tem vontade de fazer. Checar se ela está hidratada, checar se ela não está com fome, checar se ela precisa se manifestar emocionalmente — que pode ser conversar, chorar ou só ser abraçada. Ser uma pessoa que fornece cuidado pessoal, bem como receber esses cuidados também. É uma conversa de via dupla, afinal de contas. 

Uma vez que você consiga definir todas essas coisas do último parágrafo em sua intimidade, pode ser que você descubra que é mais fácil definir igualmente todas essas coisas em sua vida pessoal e até mesmo na profissional. Afinal, se você consegue ter diálogos honestos e francos sobre se você gostaria ou não de ser amarrada enquanto transa e demandar respeito, afeto e cuidado para com sua pessoa — e retribuir —, então você consegue qualquer coisa e ser respeitada por isso.

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